Ferias duplas no Brasil

Lembro que quando estávamos no processo de imigração ainda no Brasil, nos encontros que participávamos certo dia um dos colegas falou o seguinte: ” Depois que você imigrar, esteja preparado para voltar ao Brasil umas 7 vezes na sua vida. Sempre vão aparecer outras prioridades na sua vida, outras viagens, impedimentos… Então considerando que seus pais, ou família, vão visitar vocês mais ou menos o mesmo numero de vezes, depois que imigrar você só vai ver família no maximo 15 vezes durante sua vida.” Eu não sei quantas pessoas desistiram de imigrar depois dessa declaração, pelo menos dos mais próximos que tinha contato ninguém desistiu, mas na hora ele fez ate pessoas chorarem (serio)…hehehe

Vista do apartamento

Então, se isso for verdade, só tenho mais 4 idas ao Brasil de sobra, já que em dois anos e meio aqui já voltei 3 vezes.  Sim, o que ele falou tem um fundo de verdade, não é uma viagem curta ou barata para se fazer todo ano, mas não se pode generalizar. Depende de onde você mora no Canadá (quanto mais longe mais caro e complicado – ponto para Toronto aqui), situação financeira, ferias no trabalho e claro, da sua vontade.

Mas agora sobre minhas idas ao Brasil. A primeira foi programada, viajamos 14 de Dezembro para apresentar little Lucas para a família e amigos, só minha mãe e alguns tios já tinham vindo brevemente logo depois que ele nasceu. O plano era eu ficar ate 2 de janeiro e Claudia & Lucas ficarem ate fim de fevereiro aproveitando a licença maternidade dela. Depois que voltei ja estava perto de perder (o resto) minha sanidade, sabia que seria difícil passar 2 meses sozinho, mas não esperava que fosse tanto. O desespero foi tanto que estava disposto a voltar mesmo que fosse por um fim de semana para vê-los, mas falei com meu chefe para ver o que dava. Tive a cara de pau (segundo me disseram aqui no trabalho eu tive foi balls mesmo) de depois de 2 semanas da volta dos 20 dias no Brasil falar com meu chefe sobe a possibilidade de  dar um pulinho la novamente.  Falei a verdade, eu preciso voltar nem que seja por uma semana porque não estou aguentando a distancia. Ele claro não gostou da ideia e deu um pulo, mas de doido só tenho a cara e fiz uma proposta de trabalhar overtime para compensar. Na semana seguinte estava no avião da Air Canada novamente, dessa vez fazendo surpresa, avisei so pro sogro, que inventou uma desculpa esfarrapada pra ir no aeroporto levando Claudia e Lucas. A sogra foi levando Lucas para no susto não ter perigo da Claudia soltar o Lucas. Ao me ver a primeira pergunta foi se eu tinha perdido o emprego…hehehe

Batismo

Brasil é um ótimo lugar para se visitar. Sempre é bom ver parentes, amigos e só passear e comer comida boa.  Quando se sabe que esta la só de passagem, enfrentar a parte ruim fica bem mais fácil.

Lucas having fun!

A logística da coisa pode complicar um pouco ao passarmos ao posto de turistas. Onde ficar e como se locomover sao os maiores problemas. Ficar na casa de parentes e/ou amigos por muito tempo não rola. Mesmo na casa dos pais depois de adulto, principalmente se você é casado, pode ser complicado se por um periodo mais extenso. Tivemos sorte de conseguir um apartamento cedido por um parente para ficarmos o período inteiro da nossa estadia enquanto eu estava por la. Isso evita também ter que escolher uma casa especifica – geralmente os pais de um ou de outro –  e gerar ciúmes e conflito pela escolha. Outro problema é o carro. Pensei em alugar um carro mesmo o custo nao sendo barato, ter que ficar dependendo de carona, transporte publico ou taxi não tem condições. Por sorte minha mãe estava vendendo um carro e ficamos com ele ate ela coloca-lo no mercado. Outra complicação é gerenciar o tempo, muita coisa pra fazer, muita gente pra ver, tanta a correria na primeira ida que fiquei cansado das ferias e ainda não vi todo mundo que queria ver. Se não tivesse retornado para a semaninha extra teria falhado com alguns amigos…

Primeira vez na praia

Dessa vez chegou mesmo a bater a temida duvida: será que compensa morar longe da família, amigos e etc?

Felizmente (não pra quem fica) não deu nem tempo da duvida pairar muito tempo no ar. No dia seguinte da primeira ida e que cheguei sozinho, a greve da policia em Fortaleza estourou (já estavam em greve ha alguns dias) e vejo os relatos de amigos e parentes, alem da Claudia ligar temerosa. É como jogar um balde de água fria na cara e você acordar pensando: “ah, é por isso…”. O pior é ver o grau de tolerância criado por situações como essa por grande parte de quem mora no Brasil (não todo mundo, claro), achando tempestade em copo d’água o ocorrido. Minha sogra ficou irritada só porque a Claudia considerou antecipar a passagem para voltar mais cedo se a situação continuasse ou piorasse. Vi outras pessoas comentando que o pessoal tava pintando a situação pior que na verdade era, enquanto tive relatos de violência e terror de outros (visto com os olhos, não de ouvir falar). O fato é que morando no Brasil você tem que criar mesmo uma proteção, senão não se vive, negação é praticamente um mal necessário. Não posso deixar de contar um ótimo exemplo sobre isso ocorrido conosco. Estávamos numa mesa de um restaurante reencontrando alguns amigos da Claudia do tempo de faculdade, quando vem a pergunta básica “vocês gostam de morar no Canadá?”. A resposta positiva dificilmente vem isenta de comparações diversas com a realidade brasileira e quando estamos divagando sobre a violência uma mulher sentada na mesa ao lado com o filho de cerca de 8 anos não se conteve e se intrometeu na conversa exaltada dizendo “também não é assim, aqui não tem toda essa violência não, ta aqui meu filho bonzinho do meu lado, “. Eu que não iria perder meu tempo discutindo isso com quem nem conheço, eu poderia ter perguntando quantas pessoas morreram no fim de semana na cidade ( em media 20 e poucas pessoas) e dito que em Ottawa tivemos 11 homicídios em 2011! Mas eu não estava tentando convencer ninguém de nada, só estava respondendo a pergunta…

Mas voltando a questão da duvida, a maioria de nos chega no Canadá de saco cheio do Brasil, ainda mais depois de uma longa espera no processo. Eu mesmo quando voltei ao Brasil a primeira vez em 2009, que foi não por escolha, fui achando tudo ruim desde o voo da Air Canada em Toronto com a brasileirada. Mas depois de um tempo a poeira vai baixando e você vai percebendo melhor as implicações e desdobramentos de suas escolhas. Principalmente quando se tem um filho recém-nascido em solo estrangeiro.

Aqui aconselho quem não quer ouvir falar sobre o lado mau da imigração parar a leitura por aqui.

Esses dias um advogado que trabalha no mesmo prédio que eu que converso muito estava falando sobre isso. Ele mora no Canadá ha 30 anos, é muito bem sucedido, tem empresa de IT e advoga só por hobby. Ele estava refletindo e dizendo que se pudesse voltar no tempo, não teria saído do pais dele e aconselharia qualquer pessoa a fazer o mesmo. Claro, isso considerando que você não tem um forte motivo de sair de la. Cheguei a conclusão que quanto mais o tempo passa, mais você sente o peso das escolhas, ao contrario do que se pensa que com o tempo passa as coisas só melhoram.  Seus filhos crescendo sem parentes por perto, sem criar uma relação com eles tem um preço. Vê-los uma ou duas vezes ao ano (para quem tem esse privilegio) não é a mesma coisa.

Agora entendo quando vejo pessoas (e não são poucas) voltando depois de 5, 8 anos de Canadá para seus países. Agora entendo porque meus tios que moraram em Oxford por 5 anos e receberam ofertas (meu tio era PhD em física por Oxford) para ir para Alemanha, Itália, Japão, Austrália e mais meia dúzia de países resolveram voltar para o Brasil com os 3 filhos pequenos. Eu vejo isso com outros olhos hoje. De maneira que penso que estou privando Lucas de ter uma família completa e que dessa forma ele dificilmente vai ter o privilegio que eu tive do convívio com uma família grande. Isso sem falar dos nossos próprios pais, para quem ainda tem e gosta. O tempo vai passando e vamos percebendo que perdemos um tempo precioso e tempo não se obtém de volta. E ainda tem os amigos… Nem tudo é perfeito na vida, nossas escolhas sempre trazem vantagens e desvantagens com elas. Nos que escolhemos esse caminho de sair do pais de origem pagamos um preço que só damos conta com o passar do tempo.

Se eu penso em voltar pro Brasil? Estamos felizes aqui e não vejo isso acontecendo a médio prazo, mas nunca digo nunca.

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One Response

  1. Entendo e sinto igualzinho!!!!!!

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