Coming home

Pra quem imagina que viajar no dia 24 de Dezembro seria moleza, eu respondo: I wish! De Fortaleza para SP ate que foi tranquilo, tive ate poltronas so pra mim. Mas agora estou aqui no aeroporto de Guarulhos esperando o embarque para Toronto e o check-in da Air Canada estava kilometrico(literalmente). O aviao esta indo tao lotado que perguntei para a atendente da Air Canada se eles estavam operando um unico voo hoje a noite, eu sinceramente nao tinha nocao que cabia tanta gente num aviao. Pelo que percebi metade dos passageiros sao orientais indo pra Toronto(tao cliche! hehe), isso explica o total descaso pelo Natal. Muitas criancas correndo pelo saguao, acho que esse voo promete…

Enquanto isso na trilha sonora Joe Pisapia vai cantando:

“I’m coming home soon
And when I do I will see you
That is if you’ll see me too
I’m coming home soon

Or has it been so long
That you forgot about me?
I’ve been gone so long it’s true
But I’m coming home soon

I’m hoping that you feel the same
‘Cause every time I think your name
I feel the blush of wonder bloom
And I’m coming home soon”

Coincidencia ou nao, assim um ciclo se completa. E pela primeira vez eu realmente sinto um ano novo comecando de verdade.

Welcome to (the jungle)Brazil

Voltar ao Brasil sempre eh uma experiencia no minimo curiosa. Voce ja se sente com um pezinho no Brasil na sala de embarque. Muito barulho e pessoas abrindo sua vida com direito a detalhes para estranhos que acabaram de conhecer.

– Olha aqui minha mao, ta vendo esse machucado? Nao sei porque isso apareceu, deve ser a idade ou stress.  Ano passado passei 3 meses no Brasil, para fazer uma cirurgia no ombro, ainda nao estou 100%.
– Nossa! Eu tenho um problema no ombro tambem, o medico falou que se eu tiver filho um dia nao vou poder carrega-lo no braco, vai chegar uma hora que nao vou suportar a dor. Ja pensou que coisa?!
Ou coisas do tipo:
(Ao passar algo sobre o filme do Michael Jackson na TV)
– Que pena que ele morreu!
– Ah, eh…mas eu nao gostava muito dele.
– Ah, eu tambem nao, mas depois que ele morreu fiquei com pena dele.
So me restou por os fones de ouvido e tentar ir pro meu “happy place”, pena que nao tinha “A necrofilia da arte” no playlist do iPod para acompanhar o momento.

Mas sabe quando realmente cai a ficha que voce esta prestes a chegar no Brasil? Quando chamam para o embarque executivo e prioritario e todo mundo corre para a fila como se tivessem tentando embarcar na Arca de Noe. Acho que o funcionario da Air Canada repetiu no minimo umas 5 vezes ate perder a paciencia e pedir para uma funcionaria anunciar em portugues(lusitano). Ok, tudo bem, talvez nem todo mundo falasse ingles e nao estivessem entendendo. Mas depois do anuncio em portugues ainda tinha gente tentando embarcar sem ter status de prioritario ou primeira classe e o funcionario, mais nervoso que antes, teve que vir andando pela fila agitando os bracos para cima e para baixo dizendo que naquela fila so podiam estar aqueles passageiros mencionados. Os teimosos ao sairem da fila de fininho ainda soltaram uns cochichos baixos de “eu te disse” e “carinha estressado”.

No aviao, perolas do quilate “o mundo eh dos ixxxperrtuxxx” sao ouvidas, enquanto um casal por volta dos seus 45 anos, conversam entre si. “Cruza uxx deduxx”, o outro responde. Tanta torcida era porque eles vieram la da frente e estavam com esperanca de pegar uma fila de 3 cadeiras para cada um deles. Pro azar deles os donos dos assentos chegaram e ficaram em pe olhando pro bilhete e para o numero das cadeiras com cara de que nao estavam entendendo nada(eram gringos, obviamente). O comissario veio em assistencia e vendo que o gringo estava com o bilhete certo pediu para ver o bilhete do “esperto”. Esse nao deu a minima satisfacao, so se levantou e foi pra sua cadeira, logo sendo seguido pela esposa(?), cujo os donos dos assentos tambem ja estavam chegando e saiu de fininho ainda largando um “eh, nao deu”.

Uma coisa que fica bem clara eh o respeito, ou a falta dele. Aqui as pessoas espirram em cima de voce e a ultima coisa que passa pela cabeca eh cobrir a boca ou nem ao menos pedir desculpa. As palavras “ultima chamada” entao perderam totalmente o significado para mim. Nas aproximadamente 5 horas que fiquei em Guarulhos, 90% dos voos fizeram “ultima chamada” pelo menos 5 vezes. Fiquei pensando se alguem mais alem de mim achava aquilo uma piada. E muitas vezes depois das 6 ou 7 ultimas chamadas o funcionario do portao de embarque ainda chamava o nome de um por um dos passageiros que estavam faltando pelo menos mais umas 3 vezes. Depois nao sabem porque os voos no Brasil atrasam tanto.

No desembarque em SP, a sintese do Brasil: um “caos organizado”. No balcao de conexoes da TAM, nenhum funcionario. Ninguem da infraero ou que pudesse dar alguma informacao no raio de 50 metros. Ao subir para check-in normal eu e mais 2 ou 3 passeiros na mesma situacao fomos informados que aquele balcao de conexao so abre depois das 14hs. Ok, entao ta… Disseram, obviamente, para pegar a fila do check-in normal.  Ate que a fila nao estava tao grande, mas foram colocando todos os passageiros dos voos para Recife, Foz do iguacu, Brasilia e mais umas 2 outras cidades que nao lembro agora, na minha frente e dos demais. Ainda bem que eu tinha muito tempo entre um voo e outro, porque quem chega com uma janela de tempo de 1:30h/2h achando que eh suficiente pode ser dar mal. Nao foram uma nem duas as reclamacoes que vi de pessoas que ja estavam perdendo ou ja haviam perdido a conexao. A TAM esta no processo de aceitacao da Star Alliance, se ela conseguir entrar a Star Alliance perde um pouco de credibilidade para mim.

Mas a cereja do bolo ainda estava por vir. Esperando no portao que estava designado no bilhete, veio um anuncio no microfone dizendo que o portao agora tinha sido mudado. Descendo nas escadas rolantes para o novo local, achei estar chegando numa rodoviaria de interior. Sujo, poucas cadeiras para muita gente. Esperei em pe por uns 50 minutos e ao ser anunciado o embarque prioritario, nao preciso dizer que todo mundo correu para fila. Nao houve repreensao em momento algum por parte dos funcionarios. E, pasmen, meu temor se confirmava. Por tras das vidracas havia um constante movimento de onibus chegando e saindo. A sensacao de rodoviaria de interior ficou para tras e deu lugar a algo ainda pior, a lembranca de terminal de onibus em Fortaleza no horario do rush quando os passageiros foram amontoados no onibus ate nao caber mais gente em pe. Nao durou mais que 3 ou 4 minutos, mas o suficiente para os menos afortunados que “viajavam” em pe caissem uns por cima dos outros nas curvas. Chegando na aeronave, outra recordacao do passado. Aeroporto Pinto Martins na decada de 80, la pelos idos dos meus 9/10 anos. Naquela epoca as pessoas desciam da aeronave e caminhavam ate o desembarque. Mas agora eu sei que isso eh normal em Guaraulhos, algumas pessoas disseram que eh assim que funciona quando o aeroporto esta muito movimentado. Eu sei que queria um desconto na minha passagem, paguei pra viajar de aviao e nao pegar coletivo lotado. Ridiculo.

Sim, nao estou feliz de estar voltando ao Brasil. Claro que as circunstancias nao ajudam, nao estou aqui a passeio. Mas tambem nao chega a ser como minha propria mae setenciou algumas vezes no passado, “nada aqui presta para voce”. Absolutamente, aqui sempre vai ter familia e amigos pelos quais estarei feliz por voltar. Alem de tudo, eu nunca vou deixar de ser brasileiro e isso nao eh uma mera questao de escolha. Eu nasci e vou morrer brasileiro.  O que eu  posso, e vou fazer, eh tentar preservar somente o lado bom da nossa cultura.